Em Comportamento, Programação Neurolinguística, Relacionamento em Familia, Relacionamento Interpessoal

Fonte: The New York Times
https://www.nytimes.com/2017/01/30/well/mind/the-right-way-to-say-im-sorry.html

Escrito por: Jane E. Brody
Traduzido por: Luana Brantes
Revisado por: Ricardo Sigwalt

A maioria das pessoas pedem desculpas muitas vezes ao dia para uma série de afrontas comuns: esbarrar acidentalmente em alguém ou deixar de segurar uma porta aberta. Essas desculpas são fáceis e normalmente aceitas prontamente, muitas vezes com respostas como, “sem problemas”.

Mas quando “me desculpe” são as palavras necessárias para corrigir outras palavras verdadeiramente dolorosas, ações ou inações, elas podem ser as mais difíceis de serem ditas. E mesmo quando um pedido de desculpas é feito com as melhores intenções, pode ser seriamente comprometido pela forma como foi dito. Em vez de erradicar a dor que a afronta causou, um pedido de desculpas mal formulado pode resultar em raiva e antagonismo duradouros, e minar um relacionamento importante.

Admito que a vida inteira tive desafios quando se trata de pedir desculpas, especialmente quando eu pensei que estava certo ou incompreendido ou que a parte ofendida estava sendo excessivamente sensível. Mas recentemente eu descobri que um pedido de desculpas é menos sobre mim do que a outra pessoa que, por qualquer motivo,  sentiu-se ofendida por algo que eu disse, que fiz, ou que deixei de fazer, independente das minhas intenções.

Além disso eu descobri que a sinceridade é um poder medicinal com valor surpreendente para quem pede, bem como para quem recebe o pedido de desculpas.

Depois de saber que um vizinho meu me agrediu verbalmente pois estava furioso por um descuido que eu não sabia que eu havia cometido, escrevi uma carta na esperança de desfazer a hostilidade. Sem tentar justificar minha atitude equívoca, pedi desculpas pela minha falta de etiqueta e respeito. Eu disse que não estava pedindo ou esperando perdão, apenas que esperava que, daquele momento em diante, pudéssemos manter uma relação civilizada, se não amigável, e entreguei a carta com um frasco de geléia caseira que faço. Não esperava nada em troca, mas fiquei muito aliviado quando minha campainha tocou e meu vizinho me agradeceu calorosamente pelo que foi dito e feito. Meu alívio foi perceptível. Senti como se eu não tivesse simplesmente descartado um inimigo, mas sim, fiz um novo amigo, que é de fato como ele se mostrou nos dias que se seguiram.

Cerca de uma semana depois eu aprendi que, de acordo com a psicóloga e autora Harriet Lerner, a redação da minha carta de desculpas foi exatamente o que a “doutora” teria recomendado. No primeiro capítulo de seu livro, “Por que você não pede desculpa?” Dra. Lerner aponta que as desculpas seguidas de racionalizações não são adequadas e pode até ser prejudicial.

“Quando a palavra ‘mas’ está presente em um pedido de desculpas”, ela escreveu, é uma desculpa que contesta a sinceridade da mensagem original. As melhores desculpas são curtas e não incluem explicações que podem desfazê-las.

Nem um pedido de perdão deve ser enviado junto a um pedido de desculpas. A pessoa ofendida pode aceitar um sincero pedido de desculpas, mas  pode não estar pronta ainda para perdoar a transgressão. O perdão, se acontecer, pode depender de uma demonstração de que a ofensa não será repetida.

“Não é nossa tarefa dizer a alguém para perdoar ou não”, Dra. Lerner disse em uma entrevista. Ela contesta o pensamento popular de que não perdoar é ruim para a saúde e pode levar a uma vida atolada em amargura e ódio.

“Não há um caminho para a cura”, disse ela. “Há muitos outros caminhos que ajudam a abandonar emoções corrosivas sem a necessidade de perdoar, como por exemplo terapia, meditação, medicação, até mesmo natação”.

Mas recentemente eu descobri que um pedido de desculpas é menos sobre mim do que a outra pessoa que, por qualquer motivo,  sentiu-se ofendida por algo que eu disse, que fiz, ou que deixei de fazer, independente das minhas intenções.

O mais difícil de tudo diz a Dra. Lerner, é perdoar um ofensor que não pede desculpas, como minha tia, a quem eu amava muito e que foi como uma segunda mãe depois que a minha mãe morreu. Mas quando eu, de criação judia, me casei com um cristão, ela se recusou a ir ao casamento e nunca pediu desculpas pelo intenso dano que sua ausência causou. Embora eu tenha feito várias tentativas de restaurar nosso relacionamento, ela sempre conseguiu desviar, e até hoje, mais de meio século depois, eu não consigo perdoá-la.

O foco de uma desculpa deve ser o que o agressor disse ou fez, e não a reação da pessoa à situação. Dizer “sinto muito que você esteja se sentindo assim” desloca o foco para longe da pessoa que deveria estar se desculpando e transforma um “eu sinto muito” em “na verdade, eu não sinto tanto assim”, escreveu a psicóloga.

Quanto ao motivo pelo qual muitas pessoas acham difícil fazer um pedido de desculpas sincero e irrestrito,  Dra. Lerner assinalou que “os seres humanos são programados para a autodefesa. É muito difícil assumir a responsabilidade direta e inequívoca por nossas ações erradas. É preciso muita maturidade para colocar uma relação ou outra pessoa antes de nossa necessidade de estar certo.”

Pedir desculpas é admitir culpa que, certamente, deixa as pessoas vulneráveis. E não há nenhuma garantia de como o pedido será interpretado. É um direito da parte lesada rejeitar um pedido de desculpas, mesmo quando sinceramente oferecido. A pessoa pode sentir que a ofensa foi tão grande – por exemplo, ter sido abusada sexualmente por um pai – que é impossível aceitar um “mea culpa” vindo do pai abusivo anos mais tarde.

O foco de uma desculpa deve ser o que o agressor disse ou fez, e não a reação da pessoa à situação.

Corrigir um erro percebido pode ser especialmente desafiador quando envolve membros da família, que podem estar inclinados a citar a história – ele foi abusado por seu pai, ou ela foi criada por uma mãe distante – como desculpa para um comportamento prejudicial. “A história pode ser usada como uma explicação, não uma desculpa”, diz a psicóloga. “Deve envolver uma conversa que permita que a parte machucada exprima raiva e dor se um pedido de desculpas, por mais sincero que seja, tem como objetivo curar  um relacionamento quebrado”.

Ela escreveu: “Ouvir (a parte ofendida) sem estar na defensiva é a coisa mais importante em pedido de desculpas”. Ela aconselha o ouvinte a não “interromper, argumentar, refutar, corrigir fatos ou expor suas próprias críticas e reclamações “. Mesmo quando a parte ofendida tem grande parte da culpa, ela sugere desculpar-se por sua própria parte no incidente, por pequeno que seja.

Dra. Lerner vê a desculpa como “fundamental para a saúde, tanto física como emocional. “Desculpa” á a palavras mais curativas da nossa língua”, disse ela. “A coragem de pedir desculpas sabiamente e bem não é apenas um presente para a pessoa ferida, que pode estar se sentindo aliviada e liberada de recriminações obsessivas, amargura e raiva corrosiva. É também um presente para sua própria saúde, concedendo auto-respeito, integridade e maturidade – uma habilidade de ter um olhar claramente como nosso comportamento afeta os outros e assumir a responsabilidade de agir sem pensar na outra pessoa”, disse ela.

Beverly Engel, autora de “The Power of Apology”, relata como sua vida se transformou após um pedido de desculpas sincero e eficaz de sua mãe por anos de abuso emocional. “Quase como magia”, ela escreveu, “a desculpa tem o poder de reparar danos, reparar relacionamentos, aliviar feridas e curar corações partidos. Uma desculpa realmente afeta as funções corporais da pessoa que a recebe – a pressão arterial diminui, a frequência cardíaca diminui e a respiração se torna mais estável. “


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